Vocabulário 📱
Livros didáticos impressos costumam fornecer listas do vocabulário mais relevante para a aprendizagem, na forma de Glossários, não raro distinguindo o que é importante dominar de modo ativo (produção) ou apenas para compreensão (recepção). Isso porque nosso vocabulário receptivo é sempre muito maior do que o produtivo, inclusive em nossa língua materna.
Algumas características do projeto Zeitgeist tornam o uso de um Glossário menos indicado. Como a proposta é levar em conta as condições concretas de aprendizagem, o foco é mais diversificado e não coloca como prioridade situações de imersão em países de expressão alemã (viagem, trabalho ou estudo por lá), ainda que essa possibilidade não seja excluída. Por isso, listas de termos a serem necessariamente incorporados, de modo direcionado (como ocorre na maioria dos materiais didáticos disponíveis no mercado), são menos apropriadas ao espírito do projeto. Mesmo assim, fornecemos duas dessas listagens, como complemento para estudo autônomo, seja em disciplinas com os próprios materiais de Zeitgeist, seja como preparação para certificados de proficiência de instituições como o Instituto Goethe. Essas lista estão disponíveis aqui no Moodle, nesta mesma seção (Wortschatz).
No caso de Zeitgeist, a aquisição de vocabulário contemplará itinerários diversos, com um certo núcleo decorrente das atividades propostas, é certo, mas com amplo espaço para variação. Termos muito comuns serão incorporados à medida que você for trabalhando com o material do curso. As atividades de sistematização têm um papel importante na retenção do vocabulário: não basta entender algo no contexto de uma leitura, por exemplo, é preciso retomar o uso dos termos e expressões até que sejam evocados de modo natural pela memória.
Além de trabalhar com atividades de sistematização e retenção do vocabulário, integradas ao Caderno de Exercícios de cada unidade, é de extrema importância ter em mente como se organiza o léxico das línguas naturais, posto que não há uma correspondência exata entre as palavras das diferentes línguas e o mundo concreto. Mesmo numa única língua, o significado das palavras varia segundo o contexto de uso e o passar do tempo. Ter isso em mente faz parte da "consciência linguística" e pode ajudar a evitar muitas armadilhas, como a expectativa de que haja sempre uma "tradução exata" do alemão para o português e/ou entre as palavras e o mundo, como se elas nada mais fossem que meras etiquetas de objetos já pré-existentes.
No universo virtual, podemos hoje contar com inúmeras ferramentas digitais potencialmente úteis para a compreensão de textos e a aquisição de vocabulário. Muitas delas são gratuitas. No entanto, é preciso ter o cuidado de não se deixar levar pelo modo como esses aplicativos funcionam, não raro estabelecendo correspondências exatas entre os termos e expressões de uma língua e outra. Fornecemos, na página Ferramentas, uma seleção do que julgamos mais útil no nosso caso, com algumas dicas sobre como usar essas ferramentas de modo produtivo. Dentro dessa seleção, caberá a você escolher as mais adequadas, segundo a situação e/ou seus interesses específicos. Em alguns casos, até mesmo uma lista de termos com as correspondentes imagens pode ser útil. O dicionário PONS-Bild, por exemplo, organiza o vocabulário por temas e certamente pode ser útil na preparação do trabalho com os temas em pauta. Ao mesmo tempo, esse próprio dicionário ilustra como não é fácil reduzir tudo a uma referência física no mundo, ou sua representação. No tema "ciência" (Wissenschaft), por exemplo, você encontrará categorias das ciências naturais e exatas, mas não das ciências humanas. Em suma: têm-se aqui ferramentas úteis, a serem usadas com plena consciência também de suas limitações (práticas e teóricas).
Para um melhor entendimento do que está em jogo, registremos alguns princípios bem gerais que regulam a organização do léxico nas línguas naturais.
Nos estudos da linguagem, há uma distinção clássica entre a gramática e o léxico: a gramática cuida de tudo que se deixa exprimir por regras (sobretudo sintáticas), o léxico (dicionário) contempla o que for difícil de resumir em regras, demandando não apenas definições, mas também exemplos de uso. A estrutura mais comum de um verbete de dicionário contempla não apenas uma definição, mas também diversas acepções do mesmo termo, além de exemplos de uso. Além disso, se fornecem dados formais, como classe de palavra, morfologia, pronúncia, separação silábica, etc. Os exemplos abaixo foram retirados da versão brasileira do livro didático Blaue Blume (Editora da Unicamp, 2011): Unidade 2, tarefa 4 e 5, p. 9.

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Segundo o linguista e filósofo alemão Wilhelm von Humboldt, evocado em Zeitgeist, “podemos dizer com igual acerto que a humanidade inteira possui em verdade apenas uma única língua [/linguagem (Sprache)] e que cada pessoa tem uma língua particular”. Por esse motivo, “quem pronuncia ίππоς, equus e cavalo não diz total e perfeitamente o mesmo”. O esquema a seguir ilustra como as mesmas palavras assumem papéis diferentes a partir do "mesmo" campo semântico em alemão e português:

Índices numerais marcam variação de sentido para elementos de uma classe, ou campo semântico, i.e., ‘natureza’ vs. ‘família’. O ‘*’ indica repetição relativa ao nome da classe ou campo semântico, por oposição a seus elementos. Poder-se-ia agregar também, como variantes terminológicas, os pares ‘Junge/Mädchen´ e ‘menino/menina’ ao campo ‘Natur/Natureza’, mas há sutilezas de uso, e isso deixaria a visualização menos ‘limpa’. No campo ‘família’, a estrutura relacional dos termos (↔) é mais evidente. Para caracterizar o caráter institucional dessa relação, seja lembrada a expressão 'Vos declaro marido e marido' (retirada de um filme bastante popular). Ver representação abaixo, sobre como os elementos de um campo semântico se condicionam mutuamente.
Podemos também distinguir entre o significado de uma palavra (seu uso consolidado, candidato a constar em dicionários) e o sentido que atribuímos a ela numa situação específica. A definição do significado depende de uma instância coletiva que define as normas de uso adequado (inclusive no caso de variantes: a própria gíria tem de ser validada por um grupo de falantes). Já o sentido pode variar, somos nós que invocamos certo sentido ao ver ou ouvir certos termos e expressões. O sentido que atribuímos às palavras podem ter maior ou menor aceitação social. Em alguns casos, novos sentidos são incorporados ao significado geral, deslocando sua abrangência.
O linguista Ferdinand de Saussure, "pai do estruturalismo", define o significado de um termo X como tudo aquilo que não é Y ou Z, etc., dentro um campo semântico. Ou seja: as palavras só fazem sentido num sistema de oposições mútuas (e inseridas em contexto específicos de nossa vida social, podemos complementar).
Na imagem abaixo, L= Lexem (termo ou palavra). Quanto mais termos tivermos num campo semântico, mais restrita será a abrangência de cada um. Quando temos pouco vocabulário, podemos usar as palavras com acepções mais gerais. Isso faz parte do processo de aprendizagem. À medida que formos adquirindo mais vocabulário, usaremos termos mais específicos, quando necessário. O processo de enriquecimento do vocabulário é, portanto, não apenas de extensão (do número de palavras que conhecemos, e dos campos semânticos a que pertencem), quanto também de restrição: quanto maior nosso vocabulário num campo específico, menor será a abrangência dos termos, sobretudo quando pertencerem a algum campo de especialização.

Mesmo assim, lembremos: os sentidos se adequam ao contexto, então algum grau de vagueza será sempre necessário. O "exato" não é necessariamente o melhor. O melhor será aquilo que cumprir adequadamente o papel de ajudar-nos a atribuir sentido às palavras, seja na compreensão ou expressão do que queremos dizer. Para quem está aprendendo um novo idioma e se encontra em seus níveis iniciais, muitas vezes é melhor usar um termo mais genérico e contar com a boa-vontade d@ interlocutor(a), que tentará entender o que queremos dizer e poderá, eventualmente, até nos fornecer a expressão mais adequada. É isso o que ocorre na aprendizagem por imersão, é assim que aprendemos nossa língua materna.